O Brasil vendeu 5,88 milhões de aparelhos de ar-condicionado em 2024, um recorde histórico que representou alta de 38% sobre o ano anterior, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).
O calor teve papel decisivo naquele resultado: foi o ano mais quente registrado no país desde 1961. Com tantos equipamentos novos entrando em operação, cresce junto um incômodo ao mesmo tempo silencioso e barulhento. Muita gente liga o aparelho, escuta um som diferente e trava na mesma dúvida, sem saber se aquilo é normal ou se a máquina está prestes a falhar.
A pergunta é legítima. Todo ar-condicionado produz som, e a presença de ruído não significa nada por si só. O que importa é o tipo, a intensidade e o momento em que ele aparece.
Interpretar esses sinais evita duas armadilhas comuns: pagar por um chamado técnico que não precisava existir ou, no extremo oposto, ignorar um defeito pequeno que vai custar muito mais caro adiante.
O aparelho tem uma trilha sonora de fábrica
Antes de decidir se um ruído é sintoma, convém conhecer o comportamento sonoro esperado do equipamento. Um split bem instalado trabalha em uma faixa de som relativamente estável.
A unidade evaporadora, aquela que fica dentro do ambiente, costuma emitir um sopro contínuo do ventilador, algo próximo de um ruído branco. A unidade condensadora, instalada na área externa, soma o som do compressor ao giro da hélice.
Esse conjunto tem uma assinatura própria. Quem convive com o aparelho por algumas semanas passa a reconhecer o som padrão de forma quase automática, sem pensar no assunto. É justamente essa memória auditiva que serve de referência.
Quando algo muda de maneira perceptível, o próprio ouvido acusa antes de qualquer instrumento. O segredo está em prestar atenção ao contraste com o de sempre, e não ao volume absoluto do aparelho.
Vale registrar mentalmente como a máquina soa quando está nova e saudável, porque essa lembrança se torna a melhor ferramenta de diagnóstico do usuário comum.
Os ruídos que fazem parte do funcionamento
Alguns sons assustam quem não está acostumado, mas pertencem à rotina da máquina. O estalo seco no instante em que o aparelho liga ou desliga, por exemplo, costuma vir da dilatação e da contração das peças plásticas do gabinete. A variação de temperatura faz o material expandir e recolher, e disso nasce aquele tec ocasional. Não indica defeito algum.
O borbulhar leve, ou um som parecido com água escorrendo, também tem explicação simples. É o fluido refrigerante circulando pela tubulação, sobretudo nos primeiros segundos após a partida.
Modelos com tecnologia inverter, que ajustam a rotação do compressor em vez de ligar e desligar por completo, tendem a produzir esse murmúrio de forma mais suave e frequente, o que costuma confundir quem trocou de aparelho recentemente.
Há ainda o gotejamento discreto da água de condensação seguindo pelo dreno. Em condições normais, esse líquido é conduzido para fora sem alarde. Um leve pingar dentro da estrutura, especialmente em dias úmidos, entra na conta do funcionamento comum.
O ronronar constante do ventilador fecha a lista dos sons que não pedem preocupação. Todos eles têm em comum a regularidade: aparecem sempre do mesmo jeito, no mesmo momento, sem escalar de volume com o tempo.
Quando o som deixa de ser rotina e vira sintoma
O quadro muda quando o ruído ganha características metálicas, ritmadas ou simplesmente altas demais. Um chiado agudo e persistente, diferente do sopro habitual, costuma apontar para o rolamento do motor do ventilador em desgaste.
Barulho de raspagem ou atrito metálico sugere que a hélice está encostando em algum ponto onde não deveria, seja por sujeira acumulada, seja por uma peça que saiu do lugar.
O chacoalhar, aquele som de algo solto vibrando, quase sempre denuncia parafusos frouxos, painéis mal encaixados ou suportes que perderam firmeza ao longo dos anos.
Já um zumbido elétrico forte, acompanhado de dificuldade para o aparelho ligar, pode estar ligado ao capacitor ou ao compressor trabalhando sob esforço. Estalos elétricos repetidos merecem atenção imediata, porque envolvem risco de curto e de incêndio.
Técnicos especializados em ar condicionado na Lapa apontam que boa parte dos chamados de emergência começa exatamente assim, com um ruído pequeno que o morador escutou por semanas antes de aceitar que havia um problema. Esse adiamento transforma um reparo simples em uma troca de peça bem mais cara, quando não na perda do equipamento inteiro.
O próprio borbulhar, quando deixa de ser sutil e passa a soar constante e ruidoso, também acende o alerta. Pode sinalizar vazamento de gás refrigerante, situação que derruba a capacidade de refrigeração e força o compressor a trabalhar além do previsto.
O aparelho passa a gelar menos, gastar mais energia e, se nada for feito, caminha para uma pane definitiva.
Barulho de instalação e barulho de desgaste não são a mesma coisa
Uma distinção prática ajuda a localizar a origem do problema. Ruídos que surgem logo nos primeiros dias após a instalação costumam ter causa diferente daqueles que aparecem depois de anos de uso.
No primeiro caso, a suspeita recai sobre a montagem: suporte mal fixado, tubulação encostada na parede transmitindo vibração, nível incorreto da unidade externa.
A instalação, aliás, define grande parte do desempenho futuro do aparelho. Quando a tubulação de cobre, o dreno e a fixação são executados sem cuidado, o equipamento paga o preço pela vida inteira, e boa parte desse preço vem em forma de som.
Já o ruído que nasce com o tempo aponta para desgaste natural de rolamentos, buchas e componentes que simplesmente cumpriram seu ciclo.
Na Zona Oeste de São Paulo, região de forte verticalização onde prédios antigos convivem com empreendimentos novos, essa diferença aparece com clareza no dia a dia dos atendimentos.
Um aparelho recém-instalado que vibra costuma ter conserto rápido, quase sempre um ajuste de fixação. Um aparelho de oito anos que começou a rosnar pede diagnóstico mais detalhado, porque pode envolver mais de uma peça no fim da vida útil.
Manutenção preventiva e o que diz a lei
Boa parte dos ruídos anormais tem raiz na ausência de manutenção. Filtros saturados, serpentinas sujas e falta de lubrificação forçam o sistema a trabalhar em desequilíbrio, e o som acaba denunciando esse esforço extra.
A recomendação técnica usual prevê limpeza a cada seis meses no uso residencial e a cada três meses em ambientes comerciais, com maior circulação de pessoas e uso mais intenso.
Em espaços de uso coletivo, a manutenção deixou de ser conselho e virou obrigação legal. A Lei 13.589, de 2018, tornou o Plano de Manutenção, Operação e Controle, o PMOC, exigência para todos os edifícios de uso público e coletivo com climatização artificial.
Escritórios, clínicas, academias, escolas e condomínios com áreas comuns climatizadas entram na regra. O descumprimento sujeita o responsável a multas que, em casos graves, chegam a valores milionários, além de responsabilização por danos à saúde dos ocupantes.
A lógica por trás da norma não é apenas burocrática. Segundo a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), a manutenção correta preserva a qualidade do ar interior e reduz riscos respiratórios ligados a fungos e bactérias que se acumulam em equipamentos negligenciados.
O mesmo cuidado que protege a saúde mantém o aparelho silencioso e eficiente, o que mostra como o ruído está longe de ser um detalhe estético.
O momento certo de chamar um profissional
Existe uma regra simples para o consumidor guardar. Sons novos, ritmados, metálicos ou acompanhados de queda de desempenho pedem avaliação técnica sem demora.
Um aparelho que passou a gelar menos, a exalar mau cheiro ou a consumir mais energia enquanto muda o som está pedindo socorro em sua própria linguagem, e vale a pena escutar.
Ignorar esses sinais raramente sai barato. O ruído é o primeiro aviso, o mais gentil que o equipamento oferece antes de falhas maiores.
Quem aprende a distinguir a trilha sonora normal do alarme conquista duas vantagens ao mesmo tempo, economiza com reparos evitáveis e prolonga a vida útil de um bem que, com o clima brasileiro do jeito que anda, virou item de necessidade muito mais do que de luxo.
Vale a pena, por fim, guardar um método de escuta. Diante de um som suspeito, o morador pode observar três pontos antes de decidir: se o ruído é novo ou já vinha de fábrica, se ele aparece sempre no mesmo momento ou de forma aleatória, e se veio acompanhado de alguma queda no desempenho.
Respostas positivas a essas perguntas apontam para a hora de acionar um profissional. Um aparelho climatiza melhor quando é escutado com atenção, e não apenas ligado e esquecido no canto da parede.