
Poucos itens de higiene pessoal têm um desempenho comercial tão descolado do uso real quanto o protetor solar. O país aparece como o terceiro maior mercado consumidor de produtos de proteção solar do mundo, de acordo com dados da Euromonitor citados pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).
No mesmo período em que o setor comemorava esse posto, um estudo epidemiológico financiado pela L’Oréal e apresentado em webinar da entidade mostrava outro lado da história: 88% da população não usa filtro solar diariamente, e 44% ainda acreditam que a pele bronzeada dispensa a proteção.
A distância entre a compra e o hábito tem consequências sanitárias conhecidas. O câncer de pele não melanoma segue como o tumor mais incidente no Brasil, com 31,3% dos 704 mil casos novos estimados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) para cada ano do triênio 2023-2025.
Tem também um efeito menos grave, porém muito mais visível no espelho e nos consultórios: a mancha que não sai, escurece no verão e volta depois de qualquer tratamento.
Um mercado grande e um hábito pequeno
De acordo com Dra. Mariana Cabral, especialista em dermatologia de Goiânia, quem trata melasma, marcas de acne ou lentigos solares descobre rápido que o produto certo é aquele que a pessoa consegue usar em janeiro e em julho, de manhã e no meio da tarde.
Um frasco comprado em novembro e abandonado em fevereiro custa caro em qualquer métrica. O preço pago se dilui em poucas aplicações, o resultado clínico não aparece e a mancha continua respondendo aos mesmos estímulos de sempre.
Parte do crescimento do setor veio da carga tributária, e não do hábito. A ABIHPEC atribui o barateamento do produto à redução do IPI, que chegou a somar 77% nos anos 1990 e hoje está zerado.
O Rio de Janeiro incluiu o protetor com fator igual ou superior a 30 na cesta básica estadual e derrubou a alíquota de ICMS de 18% para 7%. Em outros estados, a cobrança ainda alcança patamares próximos de 25%, o que ajuda a explicar por que o mesmo item custa valores tão distintos de uma capital para outra.
O consumidor brasileiro sabe pouco sobre o que compra. Um levantamento da Mintel encomendado pela ABIHPEC, feito com 1.500 pessoas das cinco regiões do país, apontou que apenas 14% sabiam explicar a diferença entre proteção UVA e UVB.
Apenas 39% acreditavam usar o fator adequado para a própria pele. O restante compra pelo número grande impresso na frente da embalagem, que responde por parte da proteção e ignora a outra parte.
O que o rótulo é obrigado a informar
A regulamentação brasileira dá mais informação do que a maioria percebe. A RDC 629/2022, da Anvisa, em vigor desde abril daquele ano, substituiu a RDC 30/2012 e manteve o núcleo técnico do texto anterior. Duas regras interessam diretamente a quem tem mancha.
A primeira é a exigência de que a proteção contra a radiação UVA corresponda a no mínimo um terço do FPS declarado. Um produto com FPS 60 precisa comprovar FP-UVA de pelo menos 20. Como o UVA é a faixa ligada ao envelhecimento e ao escurecimento de manchas, e não à queimadura visível, essa é a informação que costuma ser ignorada na prateleira.
A segunda está nas advertências obrigatórias. O rótulo precisa trazer que a reaplicação é necessária para manter a efetividade e que, se a quantidade aplicada não for adequada, o nível de proteção cai de forma significativa.
A norma também proíbe alegações de 100% de proteção, de bloqueio total ou de dispensa da reaplicação. Nenhum fabricante brasileiro pode prometer o que muito consumidor acredita ter comprado.
Cor no frasco: quando o pigmento vira barreira
A dúvida entre protetor solar com ou sem cor aparece com frequência em consultas de dermatologia, e a resposta técnica gira em torno de um detalhe de formulação: o pigmento.
Versões coloridas costumam trazer óxidos de ferro, que ajudam a barrar parte da luz visível, aquela emitida pelo sol e também por lâmpadas e telas.
A luz visível não causa queimadura e não entra na conta do FPS. Ainda assim, atua como gatilho de escurecimento em melasma e em fototipos mais altos. É por isso que a cor deixou de ser um assunto estético e virou critério técnico em parte das prescrições.
A dermatologista Claudia Marçal, membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia, já descreveu esse efeito em material da própria ABIHPEC: filtros com alta cobertura pigmentada funcionam como barreira física contra a luz visível, que pode gerar oxidação e manchas.
A versão sem cor não é inferior por definição. Com FPS alto, boa proteção UVA e reaplicação consistente, protege muito bem contra a radiação ultravioleta.
A diferença aparece quando a luz visível entra na equação e o tom escolhido é compatível com a pele. Tom claro demais reduz a cobertura, tom escuro demais mancha a roupa e cria resistência ao uso.
Melasma e marca de acne pedem contas diferentes
O tipo de mancha muda a decisão de compra. Em melasma ativo, o pigmento tende a oferecer vantagem, sem substituir a proteção UVA alta.
Em marcas pós-inflamatórias, aquelas deixadas pela acne, as duas versões funcionam desde que a reaplicação aconteça de fato. Em pele sensível, com rosácea ou histórico de irritação, a tolerância ao veículo pesa mais que a presença de cor.
Há ainda um arranjo intermediário pouco discutido. Quando acertar o tom é difícil, o caminho é usar um filtro sem cor de alto desempenho e finalizar com maquiagem pigmentada, mantendo a lógica de barreira sem comprometer a camada de proteção.
A quantidade aplicada pesa mais que o preço
Nenhuma fórmula compensa aplicação insuficiente. A referência técnica usada em laboratório é de 2 mg por centímetro quadrado de pele.
O dermatologista Sérgio Schalka, coordenador do Consenso de Fotoproteção da Sociedade Brasileira de Dermatologia, costuma traduzir esse número de forma prática: o equivalente a cerca de uma colher de chá apenas para o rosto.
Quase ninguém aplica isso. A camada fina, usada para evitar sensação pegajosa ou brilho, entrega uma fração da proteção testada no rótulo.
Em exposição direta, a reaplicação a cada duas horas é o intervalo de referência, com reforço após suor intenso, água, fricção com toalha ou limpeza do rosto. Pálpebras, contorno do nariz, orelhas e linha do cabelo são as falhas mais comuns.
O cálculo econômico é direto. Um produto de preço alto usado em quantidade insuficiente entrega menos proteção que um produto acessível aplicado corretamente e reaplicado. A variável decisiva não é o valor pago, é a rotina.
Quanto custa comprar errado
O sensorial explica boa parte do abandono. Pesquisa da Mintel divulgada em 2018 mostrou que 61% dos brasileiros procuram protetores faciais que hidratem e 51% querem produtos resistentes ao suor.
O Caderno de Tendências produzido pela ABIHPEC em parceria com o Sebrae registrou o mesmo movimento: textura leve, secagem rápida e efeito matificante mantêm o produto em uso, e produto em uso é o único que protege.
Traduzindo para o bolso: um frasco de 50 ml comprado por R$ 90 e usado quatro vezes custa mais de R$ 20 por aplicação. O mesmo frasco em uso diário, com reaplicação, sai por centavos. A diferença não está no preço da etiqueta, está na compatibilidade entre o produto e a pele de quem vai usá-lo todos os dias.
O retorno de longo prazo é medido em literatura médica, não em marketing. O químico Sérgio Oliveira, que coordena o comitê científico de proteção solar da ABIHPEC e integra a delegação brasileira na ISO, cita estudos segundo os quais o uso regular de fotoprotetores nos primeiros 18 anos de vida reduz em 78% a incidência de câncer de pele não melanoma, e o uso continuado ao longo da vida diminui pela metade o risco do melanoma, o tipo mais grave.
Poucos produtos de consumo têm curva de retorno parecida.
Perguntas que evitam o gasto inútil
Antes de pagar, quatro checagens rápidas cobrem a maior parte dos erros de compra.
- O rótulo informa a proteção UVA, e não apenas o FPS?
- A textura combina com o tipo de pele, considerando oleosidade, tendência à acne e clima da cidade?
- Se o produto tem cor, o tom se aproxima da pele em luz natural, e não sob a iluminação da loja?
- O frasco cabe na bolsa ou na gaveta do trabalho, onde a reaplicação vai acontecer?
Nenhuma dessas perguntas aparece na campanha publicitária. Todas aparecem na conta de quem tem mancha e quer que ela pare de escurecer.
O mercado brasileiro de fotoproteção continua crescendo, movido por clima, informação e concorrência entre marcas. O uso diário, esse ainda não acompanhou.
Enquanto 88% da população deixar o filtro na gaveta, o país seguirá comprando muito e protegendo pouco, com a mancha no rosto funcionando como o mais visível dos indicadores.